Mulheres tocando instrumento percussivo Xequerê – Foto: Dreamstime
Parceria entre os cantores Rosalía e The Weeknd, com batida da MPB baiana moderna, reacende debate sobre a influência do Brasil no pop global
Por Louise Valois
Revisão Kauan Brandão
Embora separadas por oceanos diferentes, as músicas La Fama, da cantora espanhola Rosalía, e Bateu, do trio musical Gilsons e Rachel Reis, compartilham o mesmo esqueleto rítmico. Construídas sobre células percussivas de forte origem caribenha, no Brasil, ativam a memória afetiva de lambada e do ijexá, enquanto no cenário internacional remetem diretamente ao reggaeton.

Trio Gilsons na turnê “Eu Vejo Luz” – Foto: Acervo Pessoal
Influência
Para entender se essa conexão rítmica é uma via de mão dupla ou apenas uma coincidência de estúdio, o DJ Luiz Santz conta que percebe semelhança entre as produções. A explicação para essa proximidade está na raiz de cada gênero. “O ritmo vem do Afrobeat”, explica o profissional. Segundo ele, quem escuta as faixas sem atenção, percebe outros gêneros musicais. “É a mesma batida de MPB moderna. Quem ouve pensa que é Reggaeton, mas tem origem do Caribe, é música caribenha”, revela Luiz.

DJ e curador musical Luiz Santz – Foto: Instagram @santzdj
É na hora de definir quem dita as regras do mercado que a polêmica ganha corpo. “Os produtores produzem e vão buscar referências”, pontua o DJ. Destacando que o processo atual foca em uma pesquisa baseada no Afrobeat. No entanto, ele joga um balde de água fria na tese de que o Brasil está exportando essa estética. “Eu acredito que muita gente da Bahia suga o Internacional. Acho que quem é de fora não suga o que é nosso”, conclui o profissional.
Quando o ritmo vira movimento
Se nas cabines de som o debate é técnico, na pista de dança a conversa se transforma em movimento. Para entender como essa fusão rítmica mexe com as pessoas e vive na nossa essência, o professor de dança Tiago Trindade analisa como a nova MPB tem se refletido nos corpos e nas tendências globais. “Sim, acredito que existe uma MPB moderna, viva e em constante transformação. Hoje, ela dialoga com o Afrobeat, o pop latino, a música eletrônica e outros ritmos contemporâneos, sem perder a identidade brasileira”, explica o professor.
Para ele, essa nova roupagem da MPB é a ampliação de diferentes culturas. “Como professor, enxergo essa mistura como uma oportunidade de ampliar repertórios, estimular a criatividade e mostrar que a música e a dança acompanham as mudanças culturais. Misturar linguagens não significa abandonar as raízes, mas permitir que elas encontrem novas formas de expressão”, afirma Tiago.
A prova real dessa conexão caribenha acontece quando o som toca. Quando a faixa da espanhola começa a tocar, “meu corpo pede intensidade, presença e liberdade”, afirma o dançarino, revelando que o ritmo instiga passos que se fundem. “A música dela me convida a explorar movimentos marcados, gestos expressivos, mudanças de dinâmica e momentos de pausa. Existe uma combinação de força, sensualidade e dramaticidade que faz o corpo querer ocupar o espaço e transformar cada batida em expressão. Para mim, é uma música que não apenas se escuta: ela atravessa o corpo e vira movimento”, destaca o bailarino.

Bailarino e professor Tiago Trindade – Foto: Instagram @ticotrindade
Entre as batidas calculadas nos estúdios internacionais e o movimento intuitivo que toma conta das pistas, “La Fama” e “Bateu” provam que a música não respeita fronteiras geográficas. Se o mercado global consome ou não a cultura baiana de forma consciente, o fato é que o DNA rítmico que corre no Caribe e na Bahia é o mesmo. No fim das contas, seja chamando de Bachata, Afrobeat ou MPB moderna, Rosalía e Gilsons mostram que o pop atual encontrou o seu Norte no balanço do Sul Global — e o público, independentemente do idioma, responde da única forma que importa: dançando.

A artista Rosalía, no videoclipe “La Fama” – Foto: YouTube
