Jorge Amado, foto do acervo disponível na Fundação – Foto: Iolanda Maria
Espaço na capital baiana reúne relíquias, documentos e registros que celebram a vida pessoal e a carreira profissional do autor
Por Iolanda Maria
Revisão Kauan Brandão
Localizada no coração do Pelourinho, a Fundação Casa de Jorge Amado preserva as obras do romancista baiano desde 27 de março de 1987. O espaço de quatro andares reúne um vasto acervo de memórias da literatura do autor, incluindo edições de romances, recortes de jornais, gravuras e homenagens ao escritor.
A trajetória de Jorge Amado também foi marcada pela resistência política e pela defesa dos direitos humanos. Em 1937, durante o Estado Novo, exemplares de Capitães da Areia foram apreendidos e queimados em praça pública em Salvador por incomodarem o regime (obra que, anos mais tarde, se tornaria um clássico da literatura brasileira). Já em 1946, como deputado constituinte, o autor foi o responsável pela emenda que assegurou a liberdade de culto religioso no Brasil, época em que os terreiros de candomblé ainda sofriam forte perseguição policial.

Livro Capitães de Areia – Foto: Amazon
Cidade e literatura
Nascido em 1912 na região cacaueira do sul da Bahia, Jorge Amado tornou-se um dos autores brasileiros mais lidos e traduzidos de todos os tempos. Ao longo de sua carreira, escreveu dezenas de romances publicados em mais de 50 idiomas, dando protagonismo a quem a literatura da época costumava ignorar: pescadores, meninos de rua e mães e pais de santo.
Sua lista de títulos desenha um verdadeiro mapa do Brasil popular, com obras como Jubiabá, Capitães da Areia, Terra do Sem Fim, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tieta do Agreste e Tenda dos Milagres. Muitos desses livros ganharam vida nas telas: Gabriela, Cravo e Canela (1958) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966) transformaram o autor em um fenômeno de vendas e deram origem a filmes e novelas que levaram a Bahia para o mundo. Na exposição, os painéis registram o lançamento do filme Tenda dos Milagres, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e dedicam espaço especial a Tieta do Agreste, outro estrondoso sucesso da sua carreira.

Painel sobre personagens criados por Jorge Amado – Foto: Iolanda MariaO escritor morreu em 2001, aos 88 anos, em Salvador. Suas cinzas repousam sob uma mangueira no jardim da casa do Rio Vermelho. Mais de duas décadas após a partida do romancista, seus livros continuam sendo lidos, adaptados e discutidos, enquanto o jardim do Rio Vermelho segue de portas abertas para quem deseja conhecer de perto o universo de Jorge Amado.

Casamento e vida a dois
O acervo da exposição inclui também o registro da união entre Jorge Amado e Zélia Gattai, sua companheira por pouco mais de cinco décadas. Com a promulgação da Lei do Divórcio no final dos anos 1970, o casal pôde oficializar o casamento civil após décadas de convivência. De acordo com os painéis do museu, eles estiveram entre os primeiros brasileiros a se casar sob a nova legislação, realizando um desejo antigo de formalizar a união.
Antes do reconhecimento legal no Brasil, o casal já havia realizado casamentos simbólicos em locais como Uruguai, Colômbia e Las Vegas. Escritora e fotógrafa, Zélia Gattai foi parceira inseparável do autor e documentou em imagens grande parte do cotidiano da família.

Registro da união entre Jorge Amado e Zélia Gattai no acervo da exposição – Foto: Iolanda Maria
