Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (OpenAI)
Autores discutem os avanços, desafios e a importância da literatura queer no Brasil
Por Kauan Brandão
Revisão por Kátia Borges
O mercado editorial
A literatura LGBTQIAPN+ ganha cada vez mais atenção no mercado literário brasileiro. Nas redes sociais, clubes de leitura e em eventos literários, discute-se como essas histórias refletem a realidade e contribuem para desconstruir preconceitos. A temática está presente em gêneros como romance, fantasia, terror e suspense, ao mesmo tempo em que impulsiona o debate sobre representatividade.
“A literatura LGBTQIAP+ brasileira não é pequena. Pequeno, muitas vezes, é o espaço que dão a ela”, afirma Gabriela Kopinits, 53, escritora e professora carioca radicada em Salvador.
Ela revelou que existe uma demanda enorme por histórias LGBTQIAPN+ que não sejam apenas sobre dor, trauma ou rejeição. Esses sentimentos existem e precisam ser narrados, assim como a felicidade. Outro ponto é sobre o avanço desigual da representação na ficção, havia uma tendência maior em dar visibilidade a homens gays, enquanto isso, outras experiências lésbicas, bissexuais e pessoas trans ficavam em segundo plano.
“Hoje vejo uma mudança importante. Há mais autoras e autores escrevendo narrativas sáficas, trans, bi, queer, e essas histórias têm chegado a mais leitores. Mas ainda existe uma diferença entre aparecer e ocupar espaço de verdade. Uma coisa é uma identidade estar presente numa história; outra é ela protagonizar, amar, errar, desejar, se aventurar, ser contraditória, engraçada, dramática, humana”, observa.
Gabriela se define como uma escritora simpatizante, se reconhece como uma mulher heterossexual, mas afirma que não enxerga o amor como uma experiência presa a rótulos rígidos e não é avessa à possibilidade de um amor por outra mulher. A sua escrita não parte de uma realidade distante ou abstrata, escrever sobre uma vivência que não é exatamente a sua exige escuta, respeito, cuidado e humildade.
“Eu não olho para essas histórias de fora, como quem observa uma vitrine. Não acredito que o escritor deva se limitar apenas ao próprio umbigo, porque, se fosse assim, a ficção morreria de tédio e falta de ar. Mas também não acredito que se possa escrever qualquer coisa, de qualquer jeito, usando a experiência do outro como enfeite”, declara Gabriela.

Gabriela Kopinits / Foto: acervo pessoal
A experiência do leitor
Eliseu Aragão, 19, é estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mora em Salvador. Ele se sente atraído por obras queer devido à identificação com os personagens e situações que se aproximam com a sua realidade, e que, podem ser contadas através de diferentes perspectivas e gera sensação de acolhimento.
“Acho que a literatura tem a capacidade de nos aproximar de realidades que talvez nunca viveremos pessoalmente. Quando acompanhamos a trajetória de um personagem, deixamos de enxergar aquela experiência apenas como um conceito e passamos a enxergá-la como algo humano”, comenta.
Ele ainda reforça que observar personagens LGBTQIAPN+ ocupando o centro da história gera identificação, de uma forma que nem sempre acontece em outras obras. Perceber que existem histórias que assemelham às suas experiências e mostram que elas também podem ser contadas. É reconfortante perceber que existem histórias que reconhecem experiências parecidas com as minhas e que mostram que elas também merecem ser contadas.
Além das estatísticas
Segundo a Associação Nacional de Trans e Travestis (ANTRA), em 2025, o Brasil registrou 80 assassinatos e o país segue em primeiro lugar no ranking de países que mais matam pessoas transexuais e travestis no mundo desde 2008. Na luta para existir além das estatísticas, conquistar os seus direitos e ocupar espaços; como a literatura tem sido ocupada por essas vozes?
Para a professora e autora trans Ynaê Franco, 26, quando se trata do espaço que autores e personagens trans e travestis ocupam na literatura nacional, existe o julgamento e a classificação da sociedade que impõe padrões que controla e pune quem não os segue. Ao mesmo tempo em que espaços são conquistados na sociedade, graças a desafios enfrentados ao longo dos anos, passam a construir suas próprias histórias e ocupar posições de protagonismo. Essa resistência permite que sejam reconhecidas além das estatísticas de violência, com oportunidades para que possam contar as próprias histórias.
Ela se considera metódica no processo da escrita. “Eu preciso trazer a minha identidade e falar de mim de uma forma palpável, precisava trazer a identidade trans para o centro, os gozos e as dores de um corpo trans”, reforça que foi dessa forma que construiu o seu livreto Negra Bossa Samba. Inicialmente, no livreto, não pretendia trazer questões de sua identidade de forma clara, seria de forma figurada, que não fosse tão clara para quem lesse.
No entanto, percebeu que, se seguisse esse caminho, a obra perderia força. O que a fez mudar o rumo da escrita, fazendo escrever sobre experiências, sentimentos, percepções e emoções, reunindo poesia e crônicas do cotidiano. Na avaliação de Ynaê, quando pessoas trans contam suas próprias histórias, elas ajudam a construir novas formas de compreender suas identidades, rompendo com a ideia de que elas existem apenas em posições de exclusão, preconceito e marginalização. Durante muito tempo, a sociedade foi marcada por uma única narrativa, baseada em padrões cisnormativos, que reduzia pessoas trans a estereótipos, fetiches e à invisibilidade.

Ynaê Franco / Foto: redes sociais
Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia
O Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia, coordenado por Nilton Milanez, 59, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), nasceu de uma ação do Projeto de Extensão “Leitura de narrativas sobre as (homo)sexualidades no Brasil”. A iniciativa surgiu da necessidade de encontros e pertencimento entre pessoas LGBTs no campo da literatura queer. O projeto aconteceu por cinco anos online, mas, em 2025, se expandiu para além das telas e do ambiente universitário e passou a ocupar o Museu de Arte da Bahia (MAB).
No clube, discutem-se obras independentes de pessoas autoras nascidas ou que residem na Bahia. O público são pessoas que têm o desejo de discutir obras queer baianas ou apresentar seus escritos enquanto participantes do Clube. Além dos encontros no clube, os integrantes participam de eventos culturais e feiras literárias, expondo e vendendo livros. As autoras entrevistadas nesta reportagem, Gabriela e Ynaê, também participam do clube.
“Neste segundo ano da edição do projeto, o clube alçou o lugar de Clube de Leitura LGBTI+ Nacional, vinculado à Aliança Nacional LGBTI+. De um trabalho local com a literatura queer, em Salvador e no território baiano, estamos intervindo na ampliação de Clubes de Leitura LGBTI+ por todo o Brasil. É uma experiência da presença de nossas vidas queer e um enfrentamento político aos fascismos dos afetos dissidente”, destaca Nilton.
Escrita, ensino e resistência
Quando criança, durante a Ditadura Militar, ele sofreu a imposição de uma estrutura autoritária de dominação sexoafetiva pelo Estado. “Para uma criança quei vive sob um regime autoritário, a ausência de imagens possíveis de si é uma forma de violência. A escrita, então, torna-se, para mim, o único lugar onde posso me reconstruir. É por isso que busco entender como a literatura pode reforçar o sentimento de identificação. A escrita da autoficção de nossas experiências queer possibilita romper o ciclo da invisibilização e cumpre o gesto de reparação histórica”, revela.
Na atuação como professor, as obras literárias e cinematográficas queer são objetos de estudo de seus projetos de extensão, de pesquisa e de ensino. Nesse semestre, irá trabalhar obras que permitem discutir, não apenas a estética, mas também as tensões culturais de países de língua inglesa, onde a literatura frequentemente se torna campo de disputa entre conservadorismos históricos e movimentos progressistas que reivindicam visibilidade para imigrantes, pessoas LGBTQIAPN+, populações indígenas, pessoas negras e mulheres.

Nilton Milanez / Foto: acervo pessoal
“Trabalhando com essas obras em sala de aula, problematizo como a ficção pode reconfigurar imaginários, ampliar repertórios afetivos e, acima de tudo, afirmar existências nas suas relações de saber e poder dentro de nossa cultura”, explica.
Segundo Nilton, as obras literárias queer dialogam com a diversidade da comunidade LGBTQIAPN+, mas não se limitam à representação das identidades que compõem a sigla. Na avaliação do professor, chamar essas produções de literatura queer também é uma forma de reconhecer seu lugar no mercado editorial e combater o apagamento dessas experiências na literatura. Para ele, o foco está em narrativas que marcam a presença social das experiências de personagens e dos modos de vida que desafiam a heteronormatividade.
“Portanto, o mercado LGBTQIAP+ cresce, sim, mas cresce à revelia das estruturas que ainda tentam mantê-lo à margem. Há produção, público e também circulação. O que falta é reconhecimento e nomeação. A literatura queer não é tímida, o mercado é conservador e oportunista politicamente da normatividade heterocisnormativa”, pontua Nilton.
Obras dos entrevistados
Gabriela Kopinits – O que não foi combinado
Disponível na Amazon: https://a.co/d/03prAOpo
Ynaê Franco – Negra Bossa Samba
Disponível na Amazon: amazon.com.br/dp/B0H1NLRWQ5
Nilton Milanez – Audiovisualidades em mim: autoanálise foucaultiana sobre homossexualidade infantil e corpo na ditadura Disponível na Amazon: amazon.com.br/dp/B09QFN4F64
