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Enquanto as casas de apostas ampliam sua presença no futebol, a manipulação de resultados cria riscos para a integridade das competições e a segurança dos atletas
Por Ronald Guedes
Revisão por Gabriele Sá
Presentes nos patrocínios de clubes e competições, em ações de marketing com criadores de conteúdo, nas transmissões e na mídia em geral, as casas de apostas se consolidaram, temporada após temporada, como um dos principais ativos comerciais do futebol moderno.
Ao mesmo tempo que movimenta cifras milionárias e amplia as receitas do esporte, as bets abrem uma margem para um lado obscuro que ultrapassa as quatro linhas. Nesse cenário, cada lance em campo pode ganhar um significado diferente.
O problema se torna evidente quando a pressão por resultado em uma partida deixa as arquibancadas e afeta diretamente a integridade física e moral dos jogadores. E isso aconteceu recentemente na Bolívia, no dia 13 de setembro, Guabirá e Always Ready se enfrentaram pela rodada válida do campeonato boliviano. A partida terminou com a vitória do Always Ready pelo placar de 6 a 0, mas o que chamou a atenção foi a entrevista pós jogo do técnico Leonardo Eguez.
Segundo o treinador, o goleiro Manuel Ferrel teria recebido ameaças de morte contra familiares antes da partida. De acordo com o relato, os criminosos exigiam dinheiro ou que o goleiro sofresse pelo menos três gols. Ferrel atuou durante 39min do primeiro tempo e comunicou a situação aos companheiros de equipe durante o intervalo. O caso foi levado às autoridades bolivianas e passou a ser investigado.
“Não podemos fazer uma análise séria se há uma ameaça de morte, há coisas estranhas e deve-se investigar, há máfias que estão instauradas e não podemos nos fazer cegos, a bola não pode continuar rolando tão suja assim” relatou Leonardo Eguez.

“Leonardo Eguez em entrevista após a partida contra o Always Ready” – Foto : X (Twitter)
O episódio no futebol boliviano expõe uma das faces mais graves da relação entre as “bets” e o futebol. Entretanto, antes de chegar às ameaças, existe uma etapa anterior: o aliciamento. Os jogadores responsáveis por ser os principais personagens dos espetáculos são seduzidos para interferir em acontecimentos específicos dentro de campo.
Não necessariamente o atleta envolvido no esquema de manipulação é responsável por alterar diretamente o placar. Um cartão amarelo que passa despercebido ou um lance que despretensiosamente gera um escanteio pode levar altas cifras de dinheiro para os bolsos dos criminosos envolvidos.
O Brasil também enfrenta suspeitas de manipulação
No Brasil, após uma denúncia feita pelo próprio presidente do Vila Nova, Hugo Jorge Bravo, o Ministério Público de Goiás (MPGO) deflagrou a Operação Penalidade Máxima, em 2023. Durante as investigações foram encontradas evidências em três partidas da série B de 2022: Vila Nova x Sport; Tombense x Criciúma e Sampaio Corrêa x Londrina.
Segundo o MPGO, os jogadores eram procurados para recebimento de cartões e cometer pênaltis em troca de dinheiro, os valores oferecidos poderiam chegar a R$150 mil por jogador, com pagamentos iniciais em torno de R$10 mil. Estima-se que na primeira fase os valores envolvidos nas três partidas investigadas ultrapassavam R$600 mil.
Na segunda fase, a investigação avançou para a elite do Campeonato Brasileiro e para campeonatos estaduais. O MPGO apontou suspeitas de manipulação em pelo menos cinco partidas da Série A e outras cinco de competições estaduais. A operação continuou avançando para partidas em diferentes divisões do futebol brasileiro.
Em agosto de 2025, saiu a primeira sentença criminal relacionada à operação. Três envolvidos foram condenados pela Justiça: Bruno Lopez de Moura, Romário Hugo dos Santos e Thiago Chambó Andrade. Segundo o MPGO, a sentença reconheceu diferentes funções no esquema, como financiamento das apostas, aliciamento de jogadores e realização de pagamentos.
Em movimento contrário às casas de apostas, em setembro de 2026, quatro jogadores de futebol conseguiram na Justiça liminares para retirar seus nomes de plataformas de apostas. As ações alegam uso indevido da imagem dos atletas e mostram uma outra vertente na relação entre futebol e bets: a associação da imagem dos jogadores ao mercado de apostas. Embora as decisões tenham sido favoráveis aos quatro atletas, a justiça tomou decisão contrária em outro processo, mostrando que o entendimento ainda não é uniforme.
Futebol inglês reduz exposição, mas mantém a publicidade
No futebol inglês, os clubes da Premier League adotaram medidas para reduzir a exposição às apostas. Em 2023, os clubes concordaram voluntariamente em retirar as marcas de casas de apostas da parte frontal das camisas a partir do início da temporada 2026/27. Segundo o jornal britânico The Guardian, a restrição poderia resultar em uma perda coletiva de até £80 milhões em receitas na atual temporada, diante da dificuldade de algumas equipes em encontrar novos patrocinadores.
Entretanto, a restrição não representa o fim da presença das bets no futebol inglês. A publicidade segue permitida nas mangas de camisa, painéis à beira do campo, materiais promocionais e publicações pelas entidades. A Premier League, Liga Inglesa de Futebol (EFL), Women’s Super League (WSL) e Football Associantion (FA) estabeleceram regras e códigos de conduta com o objetivo de promover uma relação mais responsável entre clubes, plataformas de apostas e torcedores.
O crescimento das apostas transformou a relação entre futebol e dinheiro, mas também criou novos desafios para quem está dentro e fora das quatro linhas. O episódio do futebol boliviano e as medidas adotadas no futebol inglês mostram que a discussão já não envolve apenas publicidade ou receitas comerciais, mas também a preservação da integridade das competições e a proteção dos atletas.
Em um esporte cada vez mais conectado ao mercado das apostas, o desafio passa a ser encontrar o limite entre explorar uma importante fonte de receita e impedir que os interesses desse mercado interfiram no jogo.
