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Nascentes do Oeste: a água que sustenta o algodão baiano

Da Redação
25 de agosto de 202625 de agosto de 2026 No Comments

Projeto apoiado pela Abapa recupera áreas de recursos hídricos e fortalece a preservação ambiental na região de Luís Eduardo Magalhães 

Por Isadora Gomes

Revisão e orientação Kátia Borges

Jeová Pereira: água de nascente após mais de 10 anos, graças ao projeto apoiado pela Abapa

Quando o rio que, há mais de dez anos, levava água para Praça do Riacho Grande, zona rural da cidade de São Desidério, voltou a jorrar, Jeová Pereira dos Santos, morador da localidade, correu para registrar tudo em vídeo. A gravação foi exibida para os moradores, que se alegraram e se emocionaram diante da possibilidade de beber novamente o líquido límpido que percorre a região. Para além do que mostram os indicadores ambientais, esse tem sido o resultado visível do projeto Nascentes do Oeste, iniciativa da Associação de Agricultores e Irrigadores da Bahia (Aiba), com apoio da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa).

O vídeo de Jeová carregava uma notícia que ultrapassa a recuperação de um curso d’água, o resgate hídrico de uma paisagem que volta a fazer parte do cotidiano. A reação da comunidade de Riacho Grande revela uma dimensão que o número de nascentes revitalizadas não consegue traduzir sozinho. A água também pode carregar memória, pertencimento e a sensação de reencontro com um território conhecido por diferentes gerações. Financiado pelo Programa para o Desenvolvimento da Agropecuária (PRODEAGRO) e pelo Instituto Brasileiro do Algodão (Iba), o Nascentes do Nordeste tem mostrado a sua força no Extremo Oeste da Bahia, território do algodão baiano, onde a agricultura transforma vidas e a água ultrapassa os limites das propriedades. 

Recuperar um rio, nesse contexto, significa proteger um recurso essencial para famílias rurais e produtores. É nesse cenário que atua o projeto, criado em 2018. A ação já alcançou mais de 200 nascentes em processo de recuperação em diferentes municípios do Oeste baiano. Entre 2025 e 2026, mais de duas mil e quatrocentas pessoas participaram, entre produtores, moradores e estudantes, além de técnicos e representantes de órgãos públicos, envolvidos nas atividades de preservação. Ao longo dos anos, este trabalho também ganhou reconhecimento nacional. O Projeto Nascentes do Oeste foi vencedor do Prêmio ANA 2020, concedido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), com o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido na recuperação e preservação dos recursos hídricos da região. 

Moradores participam de ações de recuperação ambiental em Cristópolis 

A recuperação dessas áreas envolve diferentes medidas de conservação, que vão desde o cercamento das nascentes até a recomposição da vegetação em seu entorno. Essa atuação acontece em um território onde diferentes atividades agrícolas convivem com comunidades rurais e pequenos produtores. Para a Abapa, investir na conservação da água é entender que o futuro do Oeste da Bahia depende de um território ambientalmente equilibrado, no qual todos convivam com os recursos naturais de forma harmônica. Uma das principais atividades agrícolas da região, a cotonicultura está inserida nessa dinâmica.

Café com prosa

É justamente na convivência entre produção e comunidades que o Nascentes do Oeste amplia a sua atuação. Para além das intervenções físicas, a iniciativa procura aproximar a preservação do Meio Ambiente da realidade de quem vive e produz nas regiões atendidas. A participação dos moradores tem início no contato com as equipes e continua na orientação sobre o uso e a proteção das áreas próximas às nascentes. Para Artur de Sousa Ribeiro, analista ambiental da Aiba e coordenador do projeto, o agricultor está no centro desse processo. “Uma das coisas mais preciosas desse projeto é que ele é voltado para o agricultor, seja ele de grãos ou de plumas, pensando na sustentabilidade e, principalmente, na qualidade de vida dessas pessoas. Quando cuidamos da água, cuidamos também de quem vive e produz naqueles territórios.”, afirma. 

Com o tempo de convivência no campo, a relação entre técnicos, produtores e moradores acabou por criar espaços de conversa que vão muito além das orientações técnicas. Foi desse contato cotidiano que surgiu o Café com prosa. “Existe uma tradição da equipe de sentar, tomar um café e conversar com essas pessoas. O nosso ‘café com prosa’ é um momento de ouvir e trocar histórias com quem se conecta com aquele território pela experiência de viver ali. São pessoas que conhecem a terra, a água e a produção. Esse momento de conversa acaba sendo uma forma de criar vínculos e de entender melhor as necessidades de cada comunidade”, conta Artur.

Café com Prosa promove diálogo entre produtores e participantes do projeto Nascentes do Oeste

A recuperação das nascentes contribui ainda para a infiltração da água no solo, a proteção dos cursos d’água e a manutenção das condições ambientais das áreas de entorno. Em uma intervenção realizada na região da cidade de Cristópolis, por exemplo, a regeneração da vegetação e a descompactação do solo foram utilizadas para favorecer a infiltração e contribuir para a recarga de todo o lençol freático. No Oeste baiano, essa conservação acontece em um território marcado pela força da agricultura, onde a cotonicultura ocupa lugar de destaque.

Para Alessandra Zanotto, presidente da Abapa, a conservação também pode contribuir para que pequenos produtores e comunidades permaneçam nos seus territórios. “Nosso projeto leva conhecimento para esse pequeno produtor, para essa comunidade, que talvez nem sempre seja produtora. Para que ela possa continuar se mantendo ali naquele local, fazendo a sua pequena produção, seja de hortaliças ou outras, preservando aquele rio, que é fonte de água. É um projeto que colabora com a sustentabilidade e com a economia”, afirma.

Gerente de Sustentabilidade da Abapa, Yanna Karoline Santos da Costa diz que os efeitos da recuperação das nascentes ultrapassam os limites das propriedade privadas nas quais estão localizadas. “A água que a gente consegue recuperar não beneficia apenas os proprietários. Há uma capilaridade com a comunidade, e temos pontos em que aquela nascente é fundamental para algum corpo d’água maior. Então, acabamos tendo um impacto muito positivo em relação a essas pessoas e às suas comunidades”, destaca. A dimensão social aparece quando a recuperação deixa de ser percebida apenas como intervenção ambiental e passa a produzir efeitos na vida da população. 

Área em Cristópolis passa por regeneração da vegetação e descompactação do solo

Educação ambiental

Se a recuperação devolve a água ao território, a educação ambiental busca garantir que as próximas gerações compreendam o que foi necessário para fazê-la voltar e, principalmente, o que precisa ser feito para que ela permaneça. Em Cotegipe, na comunidade do Borrachudo, estudantes da Escola Água Mineral participaram de uma ação realizada em uma das áreas atendidas pelo projeto. A atividade combinou oficinas e uma caminhada pela nascente, aproximando os alunos de um recurso natural que, embora estivesse próximo às suas casas, ainda era desconhecido para alguns deles.

A ação aconteceu em uma área onde, além da recuperação das nascentes, foram construídas 22 pequenas barragens e realizadas intervenções para conter processos erosivos e melhorar a infiltração da água no solo. A região, que antes apresentava um banco de areia e pouca reserva hídrica, passou a registrar filetes de água, presença de peixes e a recuperação da vegetação após o cercamento. O contato direto com a nascente permitiu que os estudantes observassem os resultados das ações e compreendessem, na prática, a relação entre conservação do solo, vegetação e disponibilidade de água.

Joelma Tavares: primeiro contato com a nascente de um rio próximo à sua casa, em Cotegipe

Entre os participantes da ação estava a estudante Joelma Tavares, que conheceu uma nascente pela primeira vez. “Tem uns três anos que eu moro aqui e nunca tinha descido até uma área dessas. É incrível”, comemora. Enquanto Jeová reencontra na água que retorna uma paisagem que fez parte da sua história, Joelma conhece pela primeira vez uma nascente que estava próxima da sua casa. Entre a memória de quem viu a água desaparecer e a descoberta de quem aprende a reconhecê-la, o Nascentes do Oeste deixa um resultado que vai além da recuperação. A conservação passa a fazer parte da relação das comunidades com o território no qual nasceram, vivem e cultivam.


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