A tecnologia no campo exige adaptação e capacitação dos trabalhadores, que passam a atuar lado a lado com máquinas e sistemas cada vez mais modernos
Por Kauan Brandão
Revisão e orientação Kátia Borges
Imagens: Kauan Brandão, Abapa e Fazenda Bela Vista/Divulgação

Osmar Menezes na Fazenda Santa Izabel, entre Barreiras e Luís Eduardo Magalhães: mudanças
Com a chegada de inovações tecnológicas à lavoura, uma função que precisava de sete pessoas, hoje, pode ser realizada por apenas duas ou três. A automação transformou a rotina no campo e, para quem trabalha há anos com o algodão, acompanhar essas mudanças ao longo do tempo se tornou natural. É o caso do operador de colheitadeira Osmar Menezes, 52, que acompanhou as automações da Fazenda Santa Izabel, entre Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia.
Osmar Menezes é responsável por manusear a máquina que realiza a colheita mecanizada do algodão e forma os fardos na mesma hora. “Nesses 27 anos em que trabalho aqui, acompanhei muita coisa de perto e tudo mudou”, conta. O operador também destaca que, à medida que a produção de algodão cresceu, também aumentaram os investimentos necessários para manter a lavoura em funcionamento. Assim, máquinas modernas, equipamentos e técnicas de manejo passaram a fazer parte da rotina do campo, trabalhando em conjunto com profissionais.
Entre os produtores associados à Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), está Sérgio Pitt, 68, que sentiu a sua rotina profissional mudar completamente após realizar investimentos em sua propriedade, a Fazenda Bela Vista, em São Desidério, também no Oeste baiano. Agora, como ele explica, é possível cuidar do campo de qualquer lugar, em tempo real. “Antes mesmo de sair de casa, verifico no celular a previsão do tempo, alertas climáticos, imagens de satélite das lavouras, funcionamento da irrigação e das máquinas”, justifica.
Para Sérgio, que produz algodão há 16 anos, quando o trabalho na lavoura começou a ficar mais automatizado, a sensação foi a de estar imerso em um filme de ficção científica. Ele não imaginava que veria drones sobrevoando as plantações, enquanto plantadeiras e pulverizadores trabalham guiados por GPS e colheitadeiras inteligentes mapeiam a produção. “A fazenda é um ambiente variável, vivo e cheio de situações que nem sempre podem ser previstas por sensores ou sistemas. A tomada de decisões, com a interpretação de dados, avaliação de riscos, resolução de imprevistos, manutenção, supervisão da tecnologia e gestão das pessoas, continua sendo uma tarefa humana”.

O produtor Sérgio Pitt no escritório da Fazenda Bela Vista: ficção científica
Novas funções
Em toda a cadeia produtiva do algodão existem pessoas responsáveis por cada etapa, e a capacitação é indispensável diante das mudanças na rotina de trabalho. O Centro de Treinamento e Tecnologia da Abapa capacitou 161 mil pessoas em 6,4 mil cursos entre 2010 e 2026. O gestor do Centro, Juarez Moraes, 58, avalia que o produtor precisa de mais agilidade no mapeamento e de maior precisão na aplicação de insumos. Nesse contexto, a tecnologia surge como uma aliada.
Juarez Moraes ressalta que o drone é a prova prática de que a demanda nasce no campo, não na sala de aula. “O nosso papel no CT é acompanhar esse ritmo, identificamos onde está faltando pessoas qualificadas e buscamos parcerias estratégicas para estruturar um treinamento prático. Com a chegada de equipamentos tecnológicos nas fazendas, surgiram funções que simplesmente não existiam no dia a dia do campo, como o piloto de drone agrícola e o profissional focado em analisar imagens e dados de telemetria”, observa.

Juarez Moraes: diretor do centro de treinamento da Abapa: novas profissões
Um caso que ilustra essas novas capacitações é o de Luan José Dantas, 24, que foi aluno do curso de Pilotagem de Drone para Agricultura de Precisão. Ele teve a oportunidade de ampliar seus conhecimentos sobre o manuseio do equipamento, agora, com foco na agricultura. Com o crescimento da tecnologia no campo, ele identificou uma oportunidade promissora no mercado. “Assim como é preciso buscar conhecimento para operar tratores e colheitadeiras, também é necessário preparo para operar um drone. Ele facilita na medição de áreas e ajuda a identificar uma falha no plantio ou na aplicação de pesticidas”, destaca Luan.

Luan José Dantas, piloto de drone formado pelo CT da Abapa: agricultura de precisão
Cotonicultura automatizada
Para Alessandra Zanotto, presidente da Abapa, por trás de toda tecnologia há uma pessoa que exerce o controle. “Existe alguém pensando e alimentando, da mesma forma, para esses agentes e dispositivos de automação também precisamos de alguém. A automação vem para subsidiar o produtor ou quem trabalhe nesse ecossistema a tomar decisões mais rápidas e assertivas, não para substituir os trabalhadores”, ressalta.
Na prática do campo, essa tomada de decisão assistida por tecnologia se reflete em processos como a agricultura irrigada. A ferramenta permite controlar o volume de água em cada fase do cultivo e ampliar a estabilidade das lavouras. Com a irrigação se aproximando de 50% da área cultivada na Bahia, esse avanço no manejo se torna um dos fatores para a expectativa de uma safra recorde de 925,2 mil toneladas de pluma para o ciclo 2025/2026.

Alessandra Zanotto, presidente da Abapa: automação humanizada no campo é essencial
Em vez de eliminar postos, a tecnologia desloca os trabalhadores para posições mais estratégicas e menos desgastantes. Essa visão é reforçada por Ana Paula Franciosi, 27, produtora e uma das diretoras da Abapa, ao explicar que o olhar humano continua no centro do planejamento. “O melhor dos mundos é quando a gente complementa ferramentas e pessoas, trabalhando em equilíbrio. Todos os dados estão à disposição de uma forma mais simples, mas isso não quer dizer que a gente deixe a tecnologia tomar algum tipo de decisão. Nós usamos para fazer um planejamento técnico e integrar os nossos processos”, destaca.

Ana Paula Franciosi: olhar humano continua no centro do planejamento dos produtores
Tecnologia no laboratório
O Centro de Análise de Fibras da Abapa é o maior laboratório da América Latina para classificação de algodão. O gerente do setor, Sérgio Brentano, 50, ressalta que o laboratório possui um equipamento altamente tecnológico, o High Volume Instrument (HVI), que mede a qualidade e exige capacitação, tanto para operar quanto para interpretar resultados. “Os operadores passaram por treinamentos específicos oferecidos pelo fabricante e por instituições ligadas à classificação do algodão. Em alguns casos, já possuíam experiência prévia em classificação de fibras têxteis, qualidade do algodão ou atividades laboratoriais, e foram qualificados no novo sistema”.

Sérgio Brentano, da Abapa: função analítica e controle de qualidade tecnológico
Um dos coordenadores do laboratório, Renato Possato, 39, é responsável por garantir que todas as análises sejam realizadas com precisão, rastreabilidade e dentro dos padrões exigidos pelo mercado nacional e internacional. Ele conta que a automação trouxe ganhos importantes de velocidade, padronização e capacidade de processamento das amostras. “Muitas etapas que antes dependiam de avaliações manuais passaram a ser realizadas por equipamentos que capturam e processam dados de forma rápida e consistente”, explica.
A experiência do profissional continua sendo indispensável para avaliar a qualidade da amostra recebida e interpretar resultados. Por essa razão, são feitas verificações diárias de funcionamento dos equipamentos, acompanhamento dos padrões de controle, avaliação dos indicadores de qualidade e monitoramento de possíveis variações do sistema analítico. “Quando surgem resultados inconsistentes ou incompatíveis com o histórico daquela variedade ou lote de algodão, é o conhecimento técnico do analista que permite investigar as causas e garantir que o resultado final represente corretamente a qualidade da fibra”, completa o coordenador.

Profissionais do laboratório com o HVI: tecnologia de ponta a serviço da qualidade
Atenção humana no Beneficiamento
No município de Luís Eduardo Magalhães, na Icofort, indústria responsável pelo beneficiamento do caroço de algodão, Leiane Jesus, 39, é operadora de produção e controla a deslintadeira, garantindo o funcionamento correto e seguro da máquina. “Quando percebo que o fluxo está sendo interrompido ou que existe alguma condição fora do normal, preciso agir rapidamente, seguindo os procedimentos de segurança do setor. Se a gente não estiver aqui, corre o risco de pegar fogo.”
A operadora também reforça que a experiência do profissional ajuda a reconhecer um problema antes que se agrave. “Por ser um processo automatizado, não basta apertar um botão e deixar a máquina trabalhar. O mais importante é entender que a tecnologia e o trabalhador atuam juntos. A máquina executa muitas tarefas, mas são o conhecimento e a atenção do profissional que ajudam a manter o processo funcionando de forma segura e eficiente”, justifica.

Leiane Jesus ao lado da deslintadeira: atenção humana na supervisão das máquinas
Para olhos não treinados, detalhes passam despercebidos, mas para o classificador da empresa Zanotto Cotton, Leonardo Carvalho, 32, a atenção é a principal ferramenta de trabalho. Seu olhar avalia a qualidade da fibra e identifica resíduos que as máquinas não detectam, como plástico, caule e fumagina (fungo escuro de por pragas que mancha a pluma). Ele garante a separação correta para a montagem dos lotes homogêneos. “O classificador tem papel muito importante na separação do algodão, como cor, impurezas e contaminantes. Se não for separado corretamente, o produtor pode sofrer grandes perdas financeiras”, enfatiza

Leonardo Carvalho: a avaliação da fibra a partir do olhar treinado do separador
