Inclusão e pluralidade, pilares valorizados pela Abapa, refletem-se nas diversas instâncias de trabalho na cotonicultura e moldam o posicionamento da associação
Por Gabriele Sá
Revisão e orientação Kátia Borges
Imagens: Acervo Pessoal/Divulgação

Claudia Pereira de Souza, supervisora de Desenvolvimento Humano e Organizacional na Icofort
A cotonicultura no Oeste Baiano, setor brasileiro de referência internacional, vem passando por um processo silencioso, porém transformador: a valorização da diversidade dentro e fora das porteiras das fazendas, laboratórios de qualificação e indústrias de processamento. À medida que o campo se moderniza, cresce em paralelo a consciência de que produtividade e inovação dependem também de ambientes plurais e colaborativos.
Presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto explica que a pluralidade tem sido essencial em sua gestão e frisa a importância da valorização desses profissionais para o desenvolvimento da cotonicultura. “Eu costumo dizer que quanto mais diversos formos mais certeza temos daquilo que desejamos fazer. A meta é aumentar, cada vez mais, a diversidade, porque enxergamos valor nesse processo de inclusão”, afirma.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), empresas com diversidade genuína têm até 35% mais rentabilidade, melhor retenção de talentos, maior inovação e melhor reputação. Para o cultivo do algodão que enfrenta desafios cotidianos que interferem na sua produtividade, a diversidade de pensamento e representatividade, em todos os setores, tem representado um ativo competitivo crítico.
Claudia Pereira de Souza, 42 anos, é supervisora de Desenvolvimento Humano e Organizacional (DHO) na Icofort Agroindustrial. Sua trajetória profissional na cotonicultura começou há uma década. Ela passou pela gestão de pessoas, saúde e segurança, e operacional, antes de chegar ao cargo atual. Essa trajetória ascendente gerou a oportunidade de atuar em diferentes áreas da empresa e compreender a importância de cada setor. “Ampliou minha visão do negócio e me proporcionou mais segurança para orientar equipes”, observa.
Etapa a Etapa
Formado em técnico de segurança do trabalho, e eletrotécnica, Marco Teixeira, 51 anos, é responsável pelo sistema elétrico da usina Zanotto Cotton. Com experiência anterior de duas de duas décadas na Fiação Costa Rica Malhas, em Santa Catarina (SC), ele atua há seis anos na cotonicultura baiana em Luís Eduardo Magalhães. “Conheço todo o processo do algodão desde o plantio até a produção de vestiário”, explica, ressaltando que esse é um serviço delicado e que requer, além de muito conhecimento, empenho no processo, etapa a etapa.

Marco Teixeira, responsável pelo sistema elétrico da usina Zanotto Cotton
Operadora de produção, Maria Carolina Jesus da Silva, 28 anos, atua há doze meses na Unidade de Beneficiamento de Algodão (UBA). O trabalho impactou sua vida com novas oportunidades de aprendizado sobre o processamento da matéria-prima, o que a motiva a continuar se dedicando aos estudos para alcançar metas pessoais. “Ser uma mulher em uma área tão masculina tem seus desafios, mas eu os enfrento com os meus conhecimentos e vivências. Mais mulheres estão ocupando esses espaços. É um processo lento, mas importante para o futuro”, afirma.

Maria Carolina Jesus, operadora de produção na UBA em Luís Eduardo Magalhães
Carregador da torta de algodão moída, para as fazendas e distribuidoras, produto obtido por prensagem da extração mecânica do óleo do caroço e nutrição para rebanhos. Uilton Pereira Neto, 25 anos, trabalha na usina há cinco meses, e tem como objetivo um dia ser tratorista e, depois, caminhoneiro. “Estou muito contente com essa oportunidade. Hoje sou responsável pelo carregamento de um dos produtos feitos do caroço do algodão. Pretendo fazer cursos no CT da Abapa e me especializar ainda mais para conseguir realizar o meu sonho sobre rodas”, comentou.

Uilton Pereira Neto, carregador de torta de algodão moído, alimento para rebanhos
Para o supervisor da expedição e logística Roberson Brito, 44 anos, o valor de ser um profissional negro nessa posição, em uma área referência no agronegócio, representa o reconhecimento da competência. Há uma década trabalhando em Luís Eduardo Magalhães, ele diz que sua trajetória profissional refletiu no desenvolvimento e no bem estar de toda a sua família, seja por meio da transmissão do conhecimento ou da conquista do equilíbrio financeiro. “É sensacional saber que todos nós de pele negra podemos ocupar o espaço que quisermos”, pontua.

Roberson Brito, supervisor da expedição e logística
A dinâmica de inclusão na cotonicultura manifesta-se de forma prática na ocupação de espaços que historicamente apresentavam barreiras de gênero e etnia. Em todos os setores, profissionais da Abapa registram a inserção gradual de mulheres em funções de lideranças e técnicas. Embora o avanço seja progressivo, essa ocupação de espaços é apontada como uma esfera fundamental para planejar um futuro mais equilibrado e diversificado para a atividade no campo.
Ascensão e mercado
A ascensão de profissionais negros a cargos de supervisão na cotonicultura, em Luís Eduardo Magalhães e região, valida o princípio que para se desenvolver em uma carreira o que deveria sempre ser levado em consideração são os conhecimentos e competências em cada área. Essa quebra de paradigmas gera a presença de lideranças representativas que são referências e passam a vislumbrar trajetórias reais de ascensão social por meio da sua dedicação.
As iniciativas da Abapa e as possibilidades de inserção no mercado, na visão de Roberson Brito, tem inspirado a comunidade negra da região a almejar estar um dia também nesse lugar. “Estudem para obter todo e qualquer conhecimento na área, dando sempre prioridade à formação para o trabalho”, ensina o supervisor. O valor da persistência também é destacado por Cláudia Pereira. “Nunca permita que sua origem, cor ou dificuldades definam onde você pode chegar. Desenvolva competências e acredite. Entre desafios e aprendizado, as oportunidades se tornam o caminho para transformar sonhos em realidade”, observa.
