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Entre a Lei e a Bilheteria: o “boicote invisível” ao cinema nacional em Salvador

Da Redação
11 de maio de 202611 de maio de 2026 No Comments
cultura Jornalismo Salvador

Imagem: Pexels

​Alocação de Horários gera debate sobre a visibilidade do cinema brasileiro

Por Louise Barboza

Revisão por Maria Fernanda Caribé

Na última quinta-feira (07), estreou a comédia “Um Pai em Apuros”. Apesar de estar em cartaz, a produção brasileira foi alocada em horários de baixo fluxo, majoritariamente ao meio-dia, em dias úteis impossibilitando o acesso do grande público. O caso, que gerou repercussão negativa, entre internautas e usuários das redes sociais, é classificado como um “apagamento” da cultura nacional no complexo de cinemas do Salvador Shopping. O caso traz à tona um debate que vai além da divulgação: a eficácia da Lei de Tela diante das estratégias de mercado dos grandes exibidores.

A estratégia de alocar produções brasileiras exclusivamente ao meio-dia em dias úteis é o que especialistas do setor denominam como “cumprimento por forma” da legislação. Embora o complexo atenda numericamente à Lei (destinando 16% da programação anual a filmes nacionais), a escolha de horários revela como a lógica do lucro imediato pode subverter o espírito da legislação, que deveria garantir a soberania nas telas.

Grade de exibição mostra sessão única em horário de baixo fluxo, dificultando o acesso do público geral à obra brasileira / Foto: Captura de tela

Voz acadêmica

​A análise da situação foi debatida por Alice Lacerda, mestra em Cultura e Sociedade pela UFBA. A existência dessas sessões em horários marginais não é um favor do exibidor, mas um reflexo da fragilidade da proteção ao setor.

​“Acredito que, se não fosse a Lei de cota de tela, nem esse horário o filme teria”, afirma a pesquisadora. Ela destaca que a legislação acaba servindo apenas para garantir a presença física da obra, mas retira sua viabilidade comercial.

Lacuna na transparência

​Ao ser questionada da reportagem sobre a escassez de horários, via e-mail e contato telefônico, a assessoria de comunicação do Salvador Shopping eximiu-se da responsabilidade, atribuindo a gestão das grades exclusivamente à rede Cinemark. O shopping orientou que as queixas fossem realizadas em um canal de atendimento no site da exibidora. No entanto, em consulta realizada pela equipe da reportagem, o referido canal de atendimento não foi localizado, evidenciando uma grave lacuna na transparência com o consumidor.

​Indústria Cultural e o apagamento

​Esse cenário reflete o que os filósofos Adorno e Horkheimer denominam como “Indústria Cultural”. Segundo essa teoria, os bens culturais deixam de ser valorizados por sua importância artística ou histórica e passam a ser tratados como mercadorias massificadas. No caso dos cinemas de Salvador, essa lógica acaba sufocando produções locais que não recebem o mesmo investimento em horários nobres.

​Para a historiadora Iracema Paixão, esse fenômeno representa um apagamento da nossa memória coletiva. “Morar em um país de herança colonial é isso: a gente ainda tem uma mentalidade e uma cultura extremamente colonizadas, né? E a gente, que torce muito para sair dessa bolha e valorizar o que é nosso, ainda sofre e fica muito indignada”, pontua.

Segundo Iracema, ao dificultar o acesso a narrativas nacionais, as redes reforçam uma dependência de narrativas externas que nem sempre dialogam com a realidade brasileira.

Alerta para o futuro

​A situação também ecoa para as próximas produções. Samuel Estevam, que integra o elenco de “O Gênio do Crime” ao lado de Bella Alelaf longa com estreia prevista para breve, vê o cenário com preocupação. ​“Isso precisa mudar”, afirma o ator.

​Para ele, o boicote sistêmico nos horários de exibição não ameaça apenas o desempenho de um filme isolado, mas a própria continuidade da produção cinematográfica nacional, que luta para sobreviver em um mercado que, muitas vezes, parece jogar contra o próprio país.

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