Foto: Miguel Soares
Moradores e funcionários se manifestam em volta da descoberta e história do local
Por Miguel Soares
Revisão por Maria Fernanda Caribé
A comunidade do bairro de Brotas se reuniu para conhecer uma nova nascente. Encontrada há um mês, por meio de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal na Bahia (UFBA), ela está localizada atrás da paróquia Nossa Senhora de Brotas e reivindicaram a área como algo a ser preservado frente à projeto de loteamento na comunidade.
Igor Ribeiro, estagiário da Promotora Hortência Pinho, detalha que o projeto privado iniciado pelas empresas AG Service e Villas foi interditado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA) desde o dia 1 de abril após inspeção solicitada pelo Ministério Público da Bahia (MPBA) no local. A atividade deu-se em conjunto com a UFBA, cuja descoberta da nascente terá implicações no desenvolver do projeto. Cerca de 9 dos 18 lotes residenciais se encontram em cima dessa nascente.
“É um achado histórico muito significativo, que diz respeito à fundação, história, e a cultura da comunidade Fonte do Governo e do bairro de Brotas”, conta Igor.
A nascente reitera a necessidade de atualização que o projeto muito provavelmente terá que passar frente à legislação. “Além do fato da Igreja ser tombada, esse local como um patrimônio cultural é muito importante que seja protegido e reconhecido como um espaço que não pode ser separado”, afirma o funcionário.


As nascentes e o bairro
Marco Tomasoni, professor adjunto da UFBA e especialista em desenvolvimento regional e meio ambiente, detalha que o licenciamento feito pelas empresas anteriormente não constatava recursos hídricos superficiais na área. Além disso, o licenciamento argumenta que a água saía dos tubos das casas e prédios. O que se mostrou incorreto a partir da inspeção e através de mapas e trabalhos anteriores.
“A natureza é sábia, pois deixa os indícios presentes na nossa frente. Então, neste caso, a única conclusão é dizer que de fato é água de nascente, e não outra coisa”, complementa o professor.
Tanto os profissionais de inspeção quanto os moradores do bairro, como, por exemplo, Marta Silva, que faz parte da Congregação Ancilas do Menino Jesus e é acompanhadora do bairro desde 1987, recordam a ligação fundamental da comunidade com a grota e suas fontes.
“Sempre ouvimos a história de que havia uma grota e isso deu o nome da comunidade de Brotas. Além da Fonte do Governo, conhecíamos outras que provavelmente derivavam dessa,” declara Marta.
O professor Tomasoni e o funcionário Igor detalham que muitos documentos e livros históricos por volta da década de 1714 (ano em que a igreja foi fundada) relatam a aparição de uma santa, que seria Nossa Senhora das Grotas, a mesma que apareceu na cidade de Grotas em Portugal. Tal evento levou a devoção a se espalhar, a paróquia ser construída, e o nome do bairro, que até então era chamado “Aldeia de São Paulo” ser mudado para “Brotas”.
O nome sofreu a alteração linguística chamada de corruptela, de ‘Grotas’ para ‘Brotas’, detalha o professor Marco Tomasoni.



O encontro da comunidade com a natureza
Todos os que foram visitar a nascente se encontraram na Fonte do Governo para tratar do acontecimento e desceram em procissão até o local descrito. A reunião dos membros do bairro foi marcada por um espírito fraterno e de unidade diante da descoberta. Guiado em especial pela presença do padre Antônio Ademilton, pároco da Igreja de Brotas, e do babalorixá Alexandro, da comunidade Alto do Saldanha.
“Aqui é uma referência que faz uma memória ao que ocorreu em Portugal, é o registro pelo testemunho de quem também viu esse acontecimento. A igreja se une nesse movimento de comunhão e de justiça para com um sinal da nossa própria vida, a mesma água viva da qual fala o Evangelho. Olhar para uma fonte é um alimento para o coração e agradeço a Leonardo Pacheco, líder comunitário e com ele, todas as instituições articuladas por essa causa”, declara o padre Ademilton.
Em meio à chuva que começou no local a nascente foi abençoada pelo sacerdote e o babalorixá ofereceu ritual em forma de presente.

