Bienal do Livro Bahia 2026 / Foto: Daniel Matos
Entenda mais sobre a repercussão dos criadores de conteúdo na propagação à leitura
Por Miguel Soares
Revisão por Maria Fernanda Caribé
Desde que a literatura passou a ser entendida como uma fonte de experiência humana, ela é o primeiro pilar na educação integral de um indivíduo que almeje conhecer e transformar a realidade na qual vive. Assim, ela foi se tornando evidente que havia a necessidade torná-la mais acessível para as pessoas e fomentar um amplo debate acerca das implicações psicológicas, sociais, científicas, poéticas e tantas mais que se faziam notar em meio às páginas de diversas obras literárias em múltiplos cantos do mundo.
Hoje os meios de comunicação digitais conduzem tanto o leitor voraz, o “odeio-ler” e os meio-termo em direção à um acesso muito mais rico e direto com o humano do que se fosse apenas o livro e as pessoas que estão ao seu redor. Atualmente, o acesso à diversos canais nas plataformas é feito por leitores que visam alcançar diferentes públicos e oferecem contribuições singulares em vista de tornar os livros, e em especial, a literatura, algo mais comum na vida das pessoas.
Novos agentes da leitura
Os tão falados “influenciadores digitais” têm sido uma das mais influentes e controversas forças contemporâneas que alimentam o imaginário dos leitores. Buscar apurar este assunto de uma maneira abrangente e crítica, é válido para tornar mais claro como o seu agir tem impactado a sociedade hoje.
A começar pela denominação amplamente discutida de “influencer”, a jornalista e criadora de conteúdo literário Gabriele Carvalho (@livroseriesbrigadeiro no Instagram) afirma substancialmente em entrevista cedida que o termo influenciador é super condizente com a realidade. Trazendo suas experiências cotidianas com os seguidores, diz que além de virem tratar de temas literários, “as pessoas que nos seguem, nos veem como figuras de autoridade, quase amigas. De uma forma calorosa”.
Ela ainda põe ênfase na responsabilidade extrema que possui diante da vida de tantas pessoas. Portanto, não se torna jamais equivocado dizer que criadores de conteúdo são de fato uma espécie de “bússola” para quem consome seus materiais.
Indagada na situação imaginária de os influenciadores livreiros nunca terem surgido, a profissional apresenta a perspectiva abrangente de que “o consumo de literatura e cultura como um todo não seria o mesmo, já que até a forma como algumas obras são traduzidas para o cinema, leva em consideração a opinião de leitores, como diversos lançamentos recentes no Prime Video”.
Gabriele ainda afirma que esses mesmos leitores vêm de um background construído pelas redes sociais, reforçando seu papel ativo e crescente na construção da cultura contemporânea.

Contrapontos dos novos leitores
Apesar de muitas serem as contribuições dadas pelos “curadores culturais modernos”, como muitos os chamam, não é condizente por uma cortina em frente às diversas críticas contundentes direcionadas principalmente ao novo sistema de valor social, cultural e econômico advindo das atividades dos profissionais de conteúdo. A jornalista e professora universitária Kátia Borges, doutora em Literatura e Cultura (UFBA), afirma que muitos fazem um trabalho sério e que merecem o reconhecimento que recebem, embora boa parte seja superficial demais e traz à tona o problema da consagração que se baseia em negociações extra literárias.
A professora dá o exemplo de casos em que autores produzem seus livros em série utilizando IA e construindo autopromoção com a ajuda de parcerias e financiamento de influenciadores.
Caminho para novos leitores e escritores
Torna-se evidente que os produtores de conteúdo vêm vivendo um intenso caminhar por entre um alargamento de horizontes e experiências humanas mediatizadas que promovem mais autonomia e diversidade no consumo de obras literárias cada dia mais conhecidas e uma abobalhada concepção de divulgação de literatura que pode advir única ou majoritariamente de algoritmos e/ou performance frente as telas.
Entretanto, nem todos precisam ser categoricamente influenciadores digitais para conseguir notar o quanto pode ser benéfico tornar mais acessível seus projetos literários. “Muitas pessoas ficam sabendo do meu livro por conta das redes, mais do que no boca a boca. Isso é magnífico!”, diz a escritora, letróloga e jornalista em formação Vânia Santos, cujo lançamento “A Flor que Chora” foi realizado dia 16 de Abril (quinta-feira) na Bienal do Livro Bahia 2026.
As entrevistas mostram que os conteúdos digitais de literatura estão ajudando no grande aumento dos clubes de leitura, como apresenta o Prêmio Jabuti, com a nova categoria criada em 2026: “Incentivo à Leitura: Cultura Digital”. Além de uma tendência ao retorno dos conteúdos longos nas mídias, como algo que evidencia uma “fresca” no problema da superficialidade digital na literatura.
Os influenciadores livreiros estão agindo ativamente na construção do novo imaginário cultural das futuras gerações e os temas levantados por seus projetos e atividade diária demonstram vir para ficar entre os assuntos a serem mais debatidos, queridos e questionados na sociedade da informação no século XXI.
