Escritora e jornalista Marília Kubota / Foto: Arquivo pessoal
A expansão global de obras asiáticas aproxima o Brasil de narrativas marcadas por sensibilidade, crítica social e profundidade cultural
Por Júlia Ma
Revisão por Erika Reis
Segundo Marilia Kubota, do clube de leitura escritoras asiáticas, o fato de Han Kang ter vencido o Prêmio Nobel 2024 é só o resultado do que tem impulsionado a literatura asiática. “É um movimento, não só da literatura asiática, mas também do movimento asiático, movimento político, de pessoas asiáticas no mundo. Então, acho que isso tem sido um movimento global de luta pela identidade asiática no Ocidente e de divulgação mesmo do que é a cultura asiática no Ocidente, porque a gente tem muitos estereótipos sobre o que é ser asiático”, afirma Marilia.

Foto: Pexels – Charl Durand
Por muito tempo, aqui no Brasil, as prateleiras das livrarias foram dominadas por autores europeus e norte-americanos. Mas, se reparar bem, tem um movimento diferente acontecendo: histórias de outros cantos do mundo estão ganhando cada vez mais espaço e encantando os leitores.
A literatura asiática se refere à literatura produzida em diferentes países da Ásia, um continente vasto, multifacetado e diversificado. Ela abrange uma enorme variedade de culturas, tradições e línguas, desde a literatura clássica chinesa como ‘A Arte da Guerra’ de Sun Tzu, até as obras contemporâneas da Índia, Coreia do Sul, Japão e outras nações, que exploram temas universais por meio de perspectivas culturais únicas.
Ela oferece um mergulho em tradições milenares, abordando questões de identidade, e cresceu exponencialmente no Brasil a partir dos anos 2010, com a chegada de novas traduções, incluindo gêneros como a ficção de cura e thrillers psicológicos. Esse crescimento permitiu que os leitores brasileiros ampliassem o seu repertório, descobrindo novos autores e histórias que dialogam com temas universais, mas com perspectivas culturais únicas.
“O primeiro mergulho na literatura foi na década de 1980, início da década de 1990, mas de 2010 a 2020, a gente teve um crescimento maior, porém eu penso que o que impulsiona mesmo a literatura é a própria diversidade de mídias. Hoje, a gente tem uma série de streamings, que acaba incentivando o pessoal a querer conhecer mais sobre a Ásia. Então, é importante ter como base de que a literatura não caminha sozinha, mas de mão dada com outras manifestações artísticas”, afirma Simone Martins, curadora de literatura asiática.

Logo da curadoria / Foto: CEÁSIA-UFPE
Embora reflita as culturas de origem, muitas obras asiáticas abordam temas que ressoam universalmente, como a identidade, a tradição e a modernidade. A literatura de cura é um gênero proeminente na Ásia que ganhou popularidade global, sendo uma das características notáveis da literatura asiática contemporânea. O gênero “ficção de cura”, oferece narrativas tranquilas e reflexivas que abordam temas como ansiedade e perda de forma reconfortante, focadas em oferecer consolo emocional.
Segundo Marilia Kubota, do clube de leitura escritoras asiáticas, o fato de Han Kang ter vencido o Prêmio Nobel 2024 é só o resultado do que tem impulsionado a literatura asiática. “É um movimento, não só da literatura asiática, mas também do movimento asiático, movimento político, de pessoas asiáticas no mundo. Então, acho que isso tem sido um movimento global de luta pela identidade asiática no Ocidente e de divulgação mesmo do que é a cultura asiática no Ocidente, porque a gente tem muitos estereótipos sobre o que é ser asiático”, afirma Marilia.
“Mesmo distante geograficamente, as obras conversam bastante com os leitores brasileiros. As obras geram essa identificação, e os autores e autoras asiáticas, destacam bastante do resgate da memória e de conflitos. É universal. A gente consegue identificar bastante com essas vozes narrativas, as histórias que elas criam. E eu acho que é isso também que elas alcancem leitores do mundo” afirma Marina Yukawa, também integrante do clube de leitura.

Jornalista e escritora Marina Yukawa / Foto: Arquivo Pessoal
Sendo uma passagem para diversas culturas, tradições e filosofias, permitindo o conhecimento e a superação de preconceitos, e apesar de suas origens culturais específicas, muitas obras abordam temas como identidade, pertencimento, ansiedade, perda e o sentido da vida de forma que ressoa com leitores do mundo todo.
Em relação a plataformas digitais, como redes sociais e clubes de leitura online, Marina afirma: “A internet hoje é fundamental para esse alcance das redes sociais. Hoje em dia, tem muitos criadores de conteúdo que falam sobre literatura e que são muito consumidos”.
Traduzir esses livros, assim como qualquer outra, vai muito além de passar palavras de um idioma para outro. Nessa literatura, em específico, é preciso mergulhar nos contextos culturais, nas sutilezas da língua e até em elementos únicos, como o vocabulário onomatopaico coreano. Diferente do português, onde as onomatopeias costumam se limitar a sons, no coreano elas também representam imagens e movimentos.
“A tradução é bastante complexa, porque ela vai envolver não apenas o conhecimento do idioma, mas também a cultura em si. Você introspecta a cultura daquele país, e é algo muito difícil, no sentido da qualidade da tradução. Eu acho que a gente não tem muitos tradutores no país, não sei se é a questão do alto custo, que é para traduzir o livro. Tanto que a gente não tem tantos livros, tanta diversidade de livros traduzidos chinês. A gente tem mais coreanos, mas também é um nicho, não são todas essas áreas”, diz a curadora.
Alguns dos nomes de autores contemporâneos conhecidos são: Haruki Murakami (Japão), Kazuo Ishiguro (Japão/Reino Unido), Han Kang (Coreia do Sul), Cho Nam-joo (Coreia do Sul) e Arundhati Roy (Índia). E alguns desses autores têm alcançado destaque em premiações internacionais e listas best-sellers, como Min Jin Lee (EUA/Coreia), Xiaolu Guo (China), entre outros. Sendo que a autora sul coreana Han Kang, ganhou o prêmio nobel de literatura em 2024, com sua obra ‘Sem despedidas”, lançado no Brasil em maio de 2025.
Alguns outros autores famosos também chegam às livrarias do Brasil com uma grande venda, sendo vencedores de prêmios renomados e estando no topo da lista de best-sellers. Alguns dos livros do leste asiático também ganham adaptações cinematográficas entre os conhecidos dramas asiáticos famosos.
Marília Kubota também afirma que não se trata apenas de consumo, mas que podemos conhecer outras culturas e esses países através da literatura. De que há várias autoras asiáticas que escrevem conteúdo relevante fora da ficção de cura, como Mieko Kawakami.

Foto: Pexels – Hong Son
Os prêmios da literatura asiática são reconhecimentos destinados a destacar a riqueza, a diversidade e a qualidade da produção literária do continente, valorizando autores e obras de diferentes países. Podem ser específicos de uma nação ou abranger toda a região, desempenhando um papel essencial da literatura asiática dentro e fora do continente.
“A primeira coisa que as editoras fazem é colocar um selo nos livros que ganham prêmios. O autor ganhou um Nobel ou algum outro prêmio literário que começa a falar dele. Com certeza os prêmios são um ‘termômetro’ para as editoras” afirma Yukawa.
Em relação a prêmios para livros, “o Prêmio Nobel é um balizador de interesse, no sentido de as pessoas gostam de dizer que elas estão lendo o livro que foi ganhador do prêmio. As pessoas gostam de dizer que estão lendo um livro que foi ganhador. O prêmio com certeza possibilitou o aumento dos leitores de literatura asiática”, ressalta Martins.
